Análise | Beyond the Ice Palace 2 ressuscita um clássico congelado com charme sombrio e desafio
Saudações, viajante dos reinos pixelados! Beyond the Ice Palace 2, mal o nome ecoou por entre as montanhas geladas da minha memória, já senti uma pontada no coração, como se um velho tomo empoeirado de aventuras fosse retirado da estante por mãos hábeis e reverentes. Mas não se engane: este não é apenas um nome bonito perdido na névoa dos anos 80. É o retorno inesperado de uma relíquia — mais precisamente, de um jogo que existiu num limbo entre o anonimato cult e o esquecimento total.
E agora, como uma fênix congelada saindo do tundra, Beyond the Ice Palace 2 surge do gelo eterno, ressuscitado por ninguém menos que a Big Sugar e a desenvolvedora Storybird. Um time que, convenhamos, parece ter feito pacto com os deuses da nostalgia para invocar este pequeno milagre retro.
Mas, afinal, o jogo presta? Ah… venha comigo por esta trilha coberta de neve e vamos descobrir.
Um legado mais gelado que os corações de jogadores de Soulslike
Vamos botar os pingos nos is: Beyond the Ice Palace original foi lançado em 1988, lá nos confins do Amstrad CPC, Commodore 64 e Amiga. Inspirado por Ghosts ‘n Goblins, aquele clássico arcade que fazia até os mais bravos guerreiros jogarem o joystick na parede, o jogo trazia um herói sem nome tentando salvar uma princesa de um castelo congelado. Clássico? Sim. Memorável? Só pra quem tinha fita cassete com loading eterno.
Agora, em 2024, o que temos é um sucessor espiritual que mistura o charme do passado com pitadas de modernidade e muito, mas muito cuidado artístico. Não é uma continuação direta — é mais como uma carta de amor àquele tempo onde um pulo errado era sentença de morte e checkpoint era lenda urbana.
Jogabilidade: entre as espadas da frustração e o manto da glória
O que mais me surpreendeu em Beyond the Ice Palace 2 foi a fluidez do combate. Diferente do original, que te fazia sentir como se estivesse jogando com luvas de boxe congeladas, aqui o controle responde bem, com animações suaves e um sistema de ataque duplo: corpo a corpo e magia de longo alcance.
O protagonista — uma espécie de guerreiro encantado (com carisma de Link e o estoicismo de um Hollow Knight) — tem acesso a magias elementais, golpes carregados e pulos precisos. Aliás, o pulo tem aquele feeling de plataforma 16-bits que aquece o coração: pesado o bastante pra dar tensão, leve o bastante pra não te fazer amaldiçoar os deuses do level design.
Os inimigos são variados, indo de bestas espectrais a cavaleiros amaldiçoados e bosses que parecem ter saído direto dos sonhos febris de um mago doente. As fases são um show à parte, com biomas gelados, florestas envenenadas, templos em ruínas e cavernas infestadas de criaturas que fariam um necromante suar frio.
Visual e arte: o gelo nunca foi tão bonito
Se há um trunfo mágico nesta obra, é sua direção de arte. Beyond the Ice Palace 2 é uma pintura interativa. Cada tela é desenhada à mão, com uma estética que mistura livros de fantasia infantil com o sombrio dos contos góticos. Sabe aquela sensação de abrir um livro ilustrado de RPG dos anos 90? É isso.
A ambientação brilha. As sombras são suaves, os brilhos sutis. As criaturas têm um design que beira o esotérico, evocando a era de Castlevania: Symphony of the Night, só que num plano mais onírico.
E o melhor? Mesmo sendo cheio de detalhes, o jogo nunca te confunde. O cenário é bonito, mas funcional. A arte não atrapalha a mecânica. Um verdadeiro equilíbrio arcano.
Trilha sonora: canções que sussurram nas neves eternas
Como um bardo tocando sua lira em ruínas esquecidas, a trilha sonora de Beyond the Ice Palace 2 é sutil, melódica e evocativa. Não espere um Chrono Trigger, mas espere algo digno. A música alterna entre atmosferas etéreas e temas intensos nas batalhas contra chefes. E o uso de silêncio em certas áreas… ah, isso é alquimia pura.
Os efeitos sonoros também ajudam a compor a tapeçaria sensorial — o estalo da espada ao acertar o inimigo, o assobio da neve, o rugido distante de uma criatura lendária — tudo isso reforça a imersão com maestria.
Uma palavra sobre as ferramentas de modding
Eis uma surpresa digna dos deuses da criatividade: Beyond the Ice Palace 2 incluirá ferramentas de modding para PC já a partir de 27 de fevereiro, disponíveis no próprio menu principal. Isso significa que os verdadeiros magos do código poderão criar novas fases, inimigos ou até transformar o herói em um pato de combate pixelado.
A decisão de liberar o poder criativo dos jogadores transforma este título em uma verdadeira forja de possibilidades — e abre espaço para que a comunidade mantenha o jogo vivo por eras.
Dificuldade: justiça e desafio na medida certa
Diferente de outros jogos retrô que confundem dificuldade com crueldade, aqui temos um equilíbrio encantador. As fases são desafiadoras, sim, mas não injustas. Cada armadilha, cada inimigo posicionado milimetricamente, parece ter saído do grimório de um designer que respeita seu tempo.
O aprendizado é orgânico. Você morre, mas aprende. É como um bom duelo entre magos: cada derrota é uma lição, não uma humilhação.
Prós e Contras
Prós:
- Direção de arte deslumbrante e feita à mão
- Mecânicas de combate refinadas, com boas variações
- Trilha sonora atmosférica e envolvente
- Fases desafiadoras, mas justas
- Ferramentas de modding para estender a longevidade
- Um verdadeiro tributo à era de ouro dos jogos de plataforma
Contras:
- Algumas fases têm picos de dificuldade inesperados
- Ainda falta um pouquinho de polimento em certos trechos animados
- Sem dublagem ou narrativa mais profunda (poderia dar um tempero extra)
Nota Final: 8/10
Beyond the Ice Palace 2 é, acima de tudo, um feito raro: um jogo que entende o que era mágico nos clássicos, mas que não tem medo de andar por trilhas próprias. Ele não tenta ser uma cópia barata de Ghosts ‘n Goblins ou outro Metroidvania, mas se coloca como um sucessor digno — talvez até como uma fábula encantada sobre como os jogos eram e como poderiam ser. E, por mais que seja um título pequeno perto dos dragões da indústria, é nele que mora a centelha da velha magia.
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